sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Recordação

No meio de toda essa correria, tirei um momento pra tomar um cafezinho um dia desses na minha cafeteria preferida. Nada de anormal, os mesmos atendentes, as mesmas cores na fachada, a mesma cadeira e a mesma mesinha vermelha estava lá no meu canto preferido. Mas ela estava ocupada.
Sem entender o motivo daquela menina estar sentada na minha mesa, fui até ela e perguntei se poderia me sentar ali. Ela apenas acenou com a cabeça e continuou a beber o seu café ou sei lá o que era aquilo.
Ela olhava para o quadro que estava na parede como se lá estivesse a sua última tentativa de salvação. Perguntei se ela estava. Ela disse que sim e logo depois voltou atrás. Disse que estava ali porque era fraca demais para ficar sozinha dentro de casa. E começou a falar.
Identificou-se como Morgana e, sem ao menos saber meu nome, disse que tinha sérios problemas de insatisfação. Disse que não gostava do seu próprio corpo e já fez várias trapaças para deixar de ser feia. Ela me apresentou a Mia. Mia era uma amiga sua que a acompanhava, segundo ela, há uns dois anos. Com visitas diárias, sem faltar nenhum dia, Mia estava lá para fazê-la se sentir melhor. Depois que comer e se sentir culpada era Mia que a consolava. E disse mais coisas também.
Me contou que todos os amigos a deixaram, e nada mais lógico, já que ela tinha sido injusta com todos eles.  Seu namorado a trocou por uma mulher linda, sarada e com o cérebro do tamanho de uma ervilha. E daí ela se sentiu insuficiente para as pessoas e para ela mesma.
Mia nunca a abandonou durante todos os esses anos. Segundo ela, "nunca seria quem eu sou hoje se não fosse a Mia". Não sei se isso é uma coisa boa, sinceramente."Não me imagino sem a Mia, ela faz parte de mim. É como se fosse parte do meu corpo que eu não posso descartar de jeito nenhum", é o modo como Morgana se referia a Mia.
A conversa foi evoluindo e ela foi contando de todo o seu dilema. Até que chegou a um momento em que eu vi lágrimas nos seus olhos e uma pergunta: "Você quer saber quem é Mia?" Eu respondi que sim, pois eu estava curiosa para conhecer quem "salvava a sua vida". Daí ela disse algo que me fez largar a xícara e arregalar os olhos.
"Mia é a Bulimia, a doença que me apareceu quando eu me vi sozinha e sem saída para resolver os meus problemas. Ninguém ligava, eu não tinha amigos, gostava de comer e engordava muito. Comecei a praticar a Mia por simples experiência e de repente me vi completamente presa a isso. Por mais que eu tente, é praticamente impossível deixá-la ir. É como se faltasse um pedaço de mim toda vez que eu não me econtro com a minha velha amiga no final do dia. Ninguém sabe disso. Ou melhor  não sabia. Agora você sabe. Esse é o meu segredo, que agora está com você", disse Morgana com a voz mais amarga que eu pude ouvir em toda a minha vida.
Ela disse que precisava ir. Disse também que estava ali todos os dias, naquele mesmo horário, caso eu quisesse encontrá-la novamente. Perguntei a ela se queria saber o meu nome, ela disse que não precisava. E assim levantou-se e com apenas um olhar para trás, passou pela porta da cafeteria sem dizer mais nenhuma palavra.
Voltei no outro dia para encontrá-la, mas ela não estava lá. No outro também não. Nem no outro, nem no outro. Como um borrão, ainda lembro de sua face tímida, oprimida, chorosa e desesperada.
Nunca mais voltei a vê-la.

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