No meio de toda essa correria, tirei um momento pra tomar um cafezinho um dia desses na minha cafeteria preferida. Nada de anormal, os mesmos atendentes, as mesmas cores na fachada, a mesma cadeira e a mesma mesinha vermelha estava lá no meu canto preferido. Mas ela estava ocupada.
Sem entender o motivo daquela menina estar sentada na minha mesa, fui até ela e perguntei se poderia me sentar ali. Ela apenas acenou com a cabeça e continuou a beber o seu café ou sei lá o que era aquilo.
Ela olhava para o quadro que estava na parede como se lá estivesse a sua última tentativa de salvação. Perguntei se ela estava. Ela disse que sim e logo depois voltou atrás. Disse que estava ali porque era fraca demais para ficar sozinha dentro de casa. E começou a falar.
Identificou-se como Morgana e, sem ao menos saber meu nome, disse que tinha sérios problemas de insatisfação. Disse que não gostava do seu próprio corpo e já fez várias trapaças para deixar de ser feia. Ela me apresentou a Mia. Mia era uma amiga sua que a acompanhava, segundo ela, há uns dois anos. Com visitas diárias, sem faltar nenhum dia, Mia estava lá para fazê-la se sentir melhor. Depois que comer e se sentir culpada era Mia que a consolava. E disse mais coisas também.
Me contou que todos os amigos a deixaram, e nada mais lógico, já que ela tinha sido injusta com todos eles. Seu namorado a trocou por uma mulher linda, sarada e com o cérebro do tamanho de uma ervilha. E daí ela se sentiu insuficiente para as pessoas e para ela mesma.
Mia nunca a abandonou durante todos os esses anos. Segundo ela, "nunca seria quem eu sou hoje se não fosse a Mia". Não sei se isso é uma coisa boa, sinceramente."Não me imagino sem a Mia, ela faz parte de mim. É como se fosse parte do meu corpo que eu não posso descartar de jeito nenhum", é o modo como Morgana se referia a Mia.
A conversa foi evoluindo e ela foi contando de todo o seu dilema. Até que chegou a um momento em que eu vi lágrimas nos seus olhos e uma pergunta: "Você quer saber quem é Mia?" Eu respondi que sim, pois eu estava curiosa para conhecer quem "salvava a sua vida". Daí ela disse algo que me fez largar a xícara e arregalar os olhos.
"Mia é a Bulimia, a doença que me apareceu quando eu me vi sozinha e sem saída para resolver os meus problemas. Ninguém ligava, eu não tinha amigos, gostava de comer e engordava muito. Comecei a praticar a Mia por simples experiência e de repente me vi completamente presa a isso. Por mais que eu tente, é praticamente impossível deixá-la ir. É como se faltasse um pedaço de mim toda vez que eu não me econtro com a minha velha amiga no final do dia. Ninguém sabe disso. Ou melhor não sabia. Agora você sabe. Esse é o meu segredo, que agora está com você", disse Morgana com a voz mais amarga que eu pude ouvir em toda a minha vida.
Ela disse que precisava ir. Disse também que estava ali todos os dias, naquele mesmo horário, caso eu quisesse encontrá-la novamente. Perguntei a ela se queria saber o meu nome, ela disse que não precisava. E assim levantou-se e com apenas um olhar para trás, passou pela porta da cafeteria sem dizer mais nenhuma palavra.
Voltei no outro dia para encontrá-la, mas ela não estava lá. No outro também não. Nem no outro, nem no outro. Como um borrão, ainda lembro de sua face tímida, oprimida, chorosa e desesperada.
Nunca mais voltei a vê-la.
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